a person in red sweater making a christmas letter

O Natal sempre foi uma data muito especial para mim. As pessoas ficam diferentes, mais alegres, motivadas, unidas e com vontade de fazer algo novo. As ruas ficam mais bonitas, tudo decorado, repleto de luzes e cores. É tão mágico! Adoro andar por aí para ver quais casas estão enfeitadas e repletas de luzes. 

Sem falar em todo o planejamento de Natal, a compra de presentes, a preparação da ceia e a roupa para vestir. Na grande festa é o momento de ver a minha família toda reunida e receber visitas também. 

E, como toda criança, eu acredito no Papai Noel. Todos os anos eu recebia um presente por ser uma boa menina.  Mas com tanta gente falando e desfalando que ele existia, naquele ano eu fiquei em dúvida. Seria possível que o velhinho realmente não existia? 

Puxei na memória todas as vezes em que cheguei em casa, após a festa de Natal na casa da minha avó e o presente estava lá na minha cama, como um passe de mágica. É claro, que era obra do Papai Noel. 

Mas, e se minha mãe tivesse colocado o presente momentos antes de eu aparecer? 

Me encasquetei. O Natal estava chegando e eu precisava agir. Tive uma conversa séria com minha irmãzinha: “Aline, vamos investigar se existe papai noel ou não”. 

Peguei minha lupa e um chapéu detetive, e passei a caçar pistas pela casa: um embrulho, uma fantasia ou até mesmo um presente. 

Procurei no armário da cozinha, no guarda-roupa da minha mãe, no raque da sala, atrás da geladeira, no cesto de roupa suja. Nada, nenhuma pista. 

Sentei desolada, e minha irmã ficou feliz. Estava feliz por saber que o velhinho existia. Mas não durou muito. Num estalo, lembrei do desenho do tio Patinhas, um episódio em que procuraram o tesouro por toda parte e no fim estava no lugar mais óbvio, bem na cara deles. O meu guarda roupa! Ele tinha uma parte mais alta que só minha mãe mexia pois nós não alcançávamos. Peguei uma cadeira e tentei alcançar. Não era o bastante. Subi na cadeira de novo (esse trecho contém cenas fortes para as mães e pais) e segurei minha irmã no alto. Suas mãozinhas pequeninas não alcançaram muita coisa, mas o pouco que conseguiu tocar era lençol. 

Ergui ela mais alto e ouvimos um barulho. Parecia uma caixa com algo dentro. Ela pegou o pacote e trouxe até mim. 

A-há! Te peguei papai Noel falso. 

Era uma pequena caixa retangular. Parecia ser de uma boneca da barbie. Olhei, olhei. Pedi para ela colocar de volta. Obedeceu sem entender nada.  Eu tinha um plano. 

***

A noite de Natal finalmente chegou e eu estava empolgada, mas não pela festa. Eu só queria investigar. A ceia sempre acontecia na casa da minha avó, que morava na casa de cima. Ou seja, se o falso papai noel estivesse entre nós, em algum momento iria se ausentar. 

E comecei meu trabalho. Passei a observar todos que estavam ali. Acompanhei minha mãe com os olhos. Ela sabia que eu desconfiava de algo. Parecia inquieta: “vou lá pegar uma blusa de frio para você, está esfriando” – “não, mamãe, eu não quero, to bem assim”.

Boa tentativa! 

Continuei a festa observando cada um. Meu pai disse que ia pegar mais cerveja. Abri a geladeira e mostrei que estava cheia. Ele sorriu sem graça, como quem não tivesse visto e voltou para perto da minha mãe.  

Sou criança, mas não sou boba.  

Observei. Observei. Observei e… observei. Mas ninguém saiu da festa um minuto sequer. A meia noite chegou. Era Natal e todos estavam ali comemorando.  

Finda a festa, voltamos para casa e eu desapontada por não ter concluído a investigação. Era o pior Natal da minha vida! 

Até que ouvi minha mãe gritar lá do meu quarto. Essa é a hora! Fui correndo até o quarto já esperando encontrar o conhecido embrulho retangular. Minha irmã foi junto mais por curiosidade mesmo. 

Cheguei cheia de confiança, mas para minha surpresa não era ele que estava lá. Eram dois pacotes enormes ao lado da cama.

Como assim? Como isso aconteceu? 

Fiquei boquiaberta. Minha mãe, com um olhar vitorioso, pediu para minha irmã e eu abrir os pacotes. Cheguei perto devagar e comecei a rasga-lo. O cabo metálico pintado de vermelho, o banco, a rodas e o guidão foram aparecendo. Uma bicicleta. Nós pedimos por isso o ano todo, finalmente!

Já queria sair andando com meu novo transporte, até que minha mãe nos chamou de canto e disse: “Seu pai e eu não estávamos bem de dinheiro, mas compramos um presentinho para vocês” e tirou do armário o pacotinho retangular e junto, um bichinho de pelúcia para minha irmã. 

O Natal chegou ao fim. E nunca mais eu questionei se o Papai Noel existia ou não. Afinal, como a magia pode acontecer se soubermos de tudo?