Já está quase na hora de levantar. O sol bate na janela e a luz reflete por todo o quarto, é um daqueles dias que seria bom aproveitar. Gostaria de levantar antes, mas tenho que esperar a Débora vir me ajudar. Detesto essa dependência, detesto o fato de precisar sempre dos outros para conseguir fazer qualquer coisa. Preciso de ajuda para tomar banho, me vestir, para comer e para tomar meus remédios. Eu não passeio mais, não visito mais ninguém, não vou sequer ao supermercado. A única coisa que faço, com a ajuda da Débora, claro, é ir ao quintal tomar sol.

O pior de tudo é que não sou isso, não sou uma pessoa dependente. Nunca precisei de ninguém para ser feliz e tudo o que conquistei foi sozinha. Minhas vontades eram o que me guiavam, se eu queria algo, ia até o fim. Talvez por isso que nunca casei, não suportava a ideia de alguém atrapalhando meus planos.

Os pensamentos vão longe e nem percebo a porta abrir. Débora ajeita a cadeira ao lado da cama e se prepara para me levantar. 

– Bom dia, D. Ana… A senhora está bem distraída hoje, no que tanto está pensando?

Ora, eu já nem lembro mais. 

Ela dá uma risadinha como se ouvisse meus pensamentos e começa a me levantar, tira o meu pijama e me veste com uma blusinha verde e uma calça azul escuro. Ela sabe que eu gosto de verde, não posso negar, ela é carinhosa e bastante atenciosa. Não sei se faria o mesmo lugar dela, ter tanta paciência para cuidar de alguém, parece-me algo impossível. Sempre me irritei com pessoas dependentes e talvez por isso não tive filhos.

Hoje a Débora parece animada, está conversativa, abriu todas as janelas e colocou música para ouvirmos. Mas tem algo que ela não quer me dizer, vejo no canto do olho um semblante de tristeza. Há conheço tempo o suficiente para perceber quando as coisas não vão bem. Tento dizer algo, mas a falta de ar me impede. Está cada vez mais frequente, os meus pulmões simplesmente não me obedecem mais. 

Percebendo meu desconforto, ela me leva até o sofá e me ajeita com as almofadas e depois começa a vasculhar na estante. Pega algo que parece um álbum de fotos e traz até o sofá. Não é um álbum. É meu caderno de aventuras, onde registrei todas as viagens que fiz no decorrer da vida. Tempos que não voltam mais.

Ela começa a folhear as páginas, passando pelo Nordeste do Brasil, Estados Unidos, Argentina, Peru… esses eram bem do começo, nem sabia o que era viajar ainda. Muito novinha e inexperiente. Mas logo ela chegou na parte interessante, as Ilhas Seychelles, Egito, Jordânia… o mochilão pela África. Meu peito aperta, mas continuo a olhar para o caderno… vejo a Índia e Israel…Rússia…e a falta de ar volta a me incomodar, acompanhada da tosse violenta. 

Débora tenta me deixar mais confortável, mas não há o que fazer quando o incômodo vem de dentro de você. Nesse momento ela deixa uma foto cair do livro… a canoagem no Canadá… sozinha e sorridente…sempre sorridente, por toda uma vida sem nunca precisar de ninguém para ser feliz.

A lembrança desse dia vem clara na minha memória. Ninguém acreditava que uma mulher pudesse passar por aquelas águas sozinhas e eu mesmo assim preparei minha canoa, coloquei meu boné vermelho preferido e entrei. Atravessei o rio turbulento, a canoa batia nas rochas e ameaçava virar várias vezes. Coloquei mais força no braço e me mantive firme. Após atravessar, cai em um lago enorme, calmo e tranquilo, a água azul cintilava. As montanhas de gelo ao fundo só deixaram a paisagem mais inebriante. Não notei quando o rapaz atrás de mim tirou a foto. Mas que bom que tirou, pois pude guardar a lembrança. 

A foto me traz uma sensação forte. De repente estou nessas águas remando, calma e com o leve sol em meu rosto, sem ninguém. Fecho os olhos para sentir o vento tocar o meu rosto, meus braços. Ouço o barulho do remo na água e a paz vai tomando conta do meu corpo. 

A tosse parou e a falta de ar também. Ouço ao fundo a Débora dizer: 

– Você teve uma bela vida, dona Ana. Sua coragem sempre será inspiração para todas nós.