person holding chopping board with sponge cake
  • Mas nem sei o que é bolo! Conheço torta, mousse, pavê e até aquele com nome difícil, como é mesmo o nome?
  • Profiterole, filho. 
  • Então… esse aí também. Sei que quando tenho vontade vou lá na doceria, mas bolo? Nunca vi, nem sei que gosto tem.
  • Só tô te dizendo que é o que eu comia quando era criança, um pouco mais nova que você. Agora termine seu café da manhã.

Todos os dias minha mãe preparava uma mesa linda de café de manhã. Eu acordava ansioso e, quando eu descia, minha xícara de café já estava cheia, acompanhada de pão, manteiga, algumas frutas e a minha sobremesa preferida, torta de amora. 

Peguei o jornal e fui para a seção que eu lia sempre, a de notícias que aconteciam no bairro. Para um adolescente de cidade pequena é bem divertido ver o nome de todos que conheço ali, como se fossem pessoas importantes: “Vai preso Marinho, pai de Giselia” ou outra que dizia: “Protestos na praça principal!”, “Senhor Amilton está desaparecido desde a última quarta”. Eram notícias que eu geralmente já sabia, pois todos estavam comentando, mas me divertia mesmo assim. 

No correr das folhas do jornal, não vi minha mãe sair. Ela também não se lembrou de me avisar. Pela mesma porta que saiu, era possível ver uma luz verde que entrava pela fresta. A única coisa a iluminar os dias que iriam escurecer cada vez mais.

*** 

Minha mãe não retornou. Olhava diversas vezes pela janela, para conferir se estava chegando. Mas a única coisa que se via lá no fundo, era um novo letreiro que brilhava. Grande, com luzes verdes que impunham sua presença, se fazendo notada: Fábrica de Bolos. “Que diabo era aquilo? Num dia, nem sabia o que era isso e no outro, tem uma fábrica enorme lá fora.”

***

No outro dia minha mãe apareceu. Entrou em casa como se o sumiço de um dia fosse uma ida ao mercado. Usava uma camiseta verde escura, quase que uniformizada, com um emblema no lado esquerdo que não consegui identificar. Foi indo até a cozinha cantarolando, sem me olhar e sem dirigir a palavra. Começou a montar a mesa do café da manhã, como de costume, exceto pelo fato de, no lugar da torta de amora, tirou da sacola que acabara de trazer, um bolo e o colocou bem ao centro da mesa.

  • Não vai vir tomar café, filho? Senta aqui com sua mãe.
  • Cadê a torta? 
  • Esse tipo de coisa nunca existiu aqui, meu filho. Agora senta aí, antes que esfrie tudo.  

Achei melhor não contrariar. Sentamos à mesa, em silêncio. Numa tentativa desesperada de disfarçar o embaraço, abri o jornal na seção para ler o de sempre. Não encontrei. Folheei mais duas vezes. Nada. Fui novamente para a página em que costumavam estar as notícias e ao notar o que acontecera, um calafrio percorreu pela minha espinha e, como um choque elétrico, me lançou para trás, fazebdo eu cair da cadeira. O jornal todo se espalhou pelo chão.

O estrondo ainda ecoava pela cozinha quando minha mãe levantou, com a delicadeza que lhe era própria, para prestar seu papel materno. Estendi o braço para que me ajudasse, mas socorrer o filho caído nem passou pela sua cabeça. Passou direto por mim e agachou para pegar as folhas no chão. Num relance pude ler o que o emblema até então desconhecido em sua camiseta: Fábrica de bolos. 

*** 

Naquela mesma tarde, com olhos atentos ao jornal, minha mãe preparava uma receita de bolo, sem sentir falta do que fora descartado daquela edição.